quarta-feira, 4 de junho de 2008

Sangue e sêmen

Chove! Tenho alguma dificuldade para dirigir. Preciso urgentemente trocar essa paleta do limpador.
Não acreditava mais que eu pudesse me apaixonar. Não, nessa altura do campeonato! Amor maduro é uma delicia de amor! Que intimidade declarada! Afeto profundo, transformador. Tanto foi que me transformou. Não vou mais conseguir levar essa vidinha que eu estava levando até hoje. Não depois disso que aconteceu. De outra parte, terminar meu casamento vai ser um inferno. Não tenho idéia de como vou dizer que tudo acabou. Mas acabou! Chega!
Chove muito e eu não estou vendo um palmo na minha frente. Onde foi que eu enfiei a flanela? A fumaça do cigarro embaçou todo o vidro.
Nossa, ela ainda está muito atraente! Que química, que tesão! E ela disse que pensou em mim esses anos todos. Conseguiu acordar alguma coisa que estava há muito tempo dormente em mim. Amar e ser amado, de novo, mais uma vez! Beijo com paixão...humm... que delícia! Mas tenho que conseguir terminar de uma vez. Não vou, nem quero continuar mais meu casamento. Casamento? Que tal: depressão conjugal?
Graças a Deus, finalmente, estou chegando. Hoje deve chover a noite inteira!
Já é tarde, todos devem estar dormindo. Espero que esteja tudo em ordem. Minha família é dependente de mim.
Mas, não, ao contrário, encontro luzes pela casa toda. Todos devem estar acordados.
Abro a porta e lá está ela, de pé no centro da sala.
- Onde você andava? Liguei atrás de você várias vezes. Seus amigos não souberam me dizer onde você estava. Na rua até essa hora, sem avisar ninguém! Estamos todos muito nervosos.
As crianças entram correndo e me abraçam.
- Pai onde você estava? Ligamos atrás de você na casa do tio e você não estava lá. A mamãe chorou!
Falo para eles não se preocuparem. Dou um beijo em cada um, mando-os dormir que já é tarde e que amanhã eles têm que acordar cedo para ir para escola, viro-me de novo para ela, digo que tive um dia difícil, preciso de um banho urgente e logo depois conversamos.
Tiro a roupa no banheiro, instintivamente olho para baixo e percebo a cueca manchada de sangue. Ela devia estar menstruada e não vimos. Não jogo a cueca no cesto de roupa suja. Preciso dar um fim nela. Agora não é mais uma simples cueca, é uma prova! Entro com a cueca no box e escondo atrás da vidraça. Ela entra no banheiro. Sem trocar qualquer palavra começa a remexer no cesto.
- Onde está a sua cueca?
- O que? Não estou te ouvindo. Respondo timidamente.
- Onde você colocou sua cueca? Não estou encontrando aqui no cesto.
Sua voz é de raiva e choro. É o sexto sentido feminino. Por que cargas d’água ela encasquetou logo agora com minha cueca? Digo que deve estar no cesto. Que joguei junto com a calça e a camisa, que ela me deixe tomar meu banho em paz e que assim que eu acabar a gente conversa. Ela sai batendo a porta.
Nem que eu quisesse inventar alguma mentira, agora não dá mais. Vou ter que enfrentar o leão já. Acabo meu banho sem vontade de sair dali. Se pudesse eu nunca mais saia desse banheiro. Enxugo-me lentamente e em especial o artista principal, meu pinto! Pego a cueca de trás da vidraça, coloco num saco plástico que escondo embaixo da pia, ainda sem saber como me desfazer daquilo, visto um conjunto de moletom velho, um tênis e vou até minha esposa, disposto a abrir o jogo, falar tudo, desde o começo até o fim.
Como terminar um casamento? Como dizer que vou embora? Que não posso mais, que acabou, que encontrei outra pessoa, uma paixão impossível de minha juventude, que bastou um simples olhar para que nós dois sentíssemos nossos corações acelerados e déssemos o beijo inevitável, que fizéssemos sexo, amor represado, incontido, de duas pessoas a procura de consolo mútuo... Que, enfim, estou amando outra.
Na sala, ela continua de pé. Olha em minha direção, mas tenho a nítida impressão que vê através de mim. Peço para que ela se sente e sento-me, estrategicamente, na poltrona ao lado. Sua figura me passa medo e compaixão. Tenho ao meu lado alguém destruído. Uma mulher ferida. Queria poder diminuir sua dor. Não queria que ela sofresse e, também, não queria outro escândalo. Como fazer dessa conversa séria e difícil, um diálogo civilizado entre duas pessoas bem-educadas? O silêncio começa a pesar insuportavelmente. Bom, se tiver que ser que seja, penso e falo:
- Eu estava com a Roberta. Uma antiga namorada que encontrei, por acaso, na casa de um amigo comum. Não planejamos nada, mas estamos apaixonados.
Seus olhos ficam estáticos, suas pálpebras tremem, sua feição é enigmática. Permanece muda! Eu, então, continuo:
- Olha! Eu juro que não fui procurar ninguém. Aconteceu! Só isso! Sinto muito.
Ela se levanta. Seu rosto se colore de vermelho. Quando penso que vai falar, sua voz é um grito:
- Mas você pensou em mim e nas crianças? Você, por um momento, pensou em mim? E eu? Você quer que eu simplesmente deixe de existir? E nós? Estamos casados há 12 anos! Doze anos, você sabe o que é isso?
Respondo sem pensar (quando ela grita, eu não consigo pensar)!
- Acabou! Nosso casamento acabou! Aliás, faz tempo. Não sei se você percebeu. Há muito não nos suportamos. Vivemos brigando. Discutindo por tudo. Estamos juntos ainda por que não temos condições financeiras para uma separação. Continuamos por causa das crianças. E, por favor, você poderia não gritar? Não digo pelos vizinhos, por que esses coitados devem estar acostumados, falo em nome das crianças que não precisam ouvir essa conversa.
- Ta bem. Você tem razão, não grito mais. Mas, como assim, acabou? Por causa de um ímpeto, de uma trepada com uma qualquer que você encontrou numa noite de chuva? E nós? E nós?
- Acabou. Não sei, acredito que você tenha uma capacidade de sofrer muito mais elástica que a minha. Eu não agüento mais nosso relacionamento. E não foi uma simples trepada com uma qualquer que eu encontrei numa noite de chuva. Eu me apaixonei. Juro, não acreditava mais ser possível, mas estou apaixonado. Acabou! Isso para mim é definitivo.
Ela se levanta e sai chorando em direção ao nosso quarto. Levanto-me também. A não ser pelo grito no meio da conversa, parece que consegui falar o que queria. Não foi exatamente um diálogo civilizado entre duas pessoas bem-educadas, mas, somando-se tudo, foi mais fácil que eu pensava. Vou ao quarto e vejo-a jogada na cama chorando com a cabeça enfiada no travesseiro. Acho que até mesmo como medida de auto-proteção, olho e não sinto nada. Nenhum sentimento. Saio, pego o saco plástico no banheiro, vou até a área de serviço, visto a coleira no cachorro e desço as escadas trotando, como que fugindo daquela atmosfera pesada.
Chove muito, ainda! O porteiro estranha que eu saia para passear com o cachorro, sem ao menos levar um guarda-chuva. Faz um comentário que não chego a ouvir, respondo com um “boa noite, obrigado” e saio porta afora. Molho-me inteiro. Ando devagar. Estou sozinho. Ninguém em sã consciência andaria nesse temporal. Passo por uma caçamba de entulhos. Sem pensar, abro o saco plástico e olho mais uma vez para minha cueca manchada de sangue e sêmen. Sinto uma angústia profunda. Sangue e sêmen, fluídos corporais que significam o fim e o começo, aqui representam, simultaneamente, um golpe de misericórdia em um casamento melancólico e a semente de uma nova fase em minha vida. Sinto medo! Como vou administrar toda a separação? Será que vou conseguir ficar com a Roberta? Jogo o saco na caçamba. Vai ser duro, mas um dia, tenho certeza, ainda vou dar risada com meus amigos, tomando cerveja e me lembrando dessa situação assombrosa. Tudo passa na vida.
O cachorro se sacode inteiro, jogando água para todos os lados. Preciso entrar, está chovendo muito!

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Coisas de Coelho!

Clima tropical.

Coelho pensou em tomar um chá frio. Inácio, o filho, estava deitado em seu colo. Chamou a empregada e pediu que colocasse o menino na cama.

O pôr do sol estava esplêndido!

Todo céu tinha se coberto de um véu cor de rosa...

As nuvens formavam figuras e sua imaginação andava aguçada...

Desde que perdera sua mulher, levada pela doença (Coelho nunca mais se permitira nomear a moléstia que tinha consumido sua esposa), não tinha tido qualquer contato físico com outra mulher.

Acostumado à lida, Coelho, aos seus cinqüenta e cinco anos, sentia-se potente.


Notara, todavia, que, nos últimos tempos, o chá frio diminuira de efeito:

sentia atração pelas empregadas!






quinta-feira, 29 de maio de 2008

Recomeço

Nada de interessante programado para acontecer. Naquele ano, não havia mais feriados. Ele ainda não tinha completado metade do seu período aquisitivo de férias. Estava com vários projetos atrasados e várias contas vencidas não pagas. Há muito não experimentava um momento de paz. Não se sentia protegido nem ao menos em sua própria casa. Impotente diante das provações que a vida lhe impunha, sua única vontade era dormir. Sono profundo e sonhos de fuga.
Eram seis e meia de uma manhã de quarta-feira. Um dia úmido e de céu encoberto. Podia-se ouvir o barulho das rodas molhadas dos automóveis. Todos tinham pressa e aceleravam os motores.
Tomou um banho mais demorado. Resolveu não fazer a barba. O vapor da água quente embaçou o espelho e apareceu o que havia escrito com o dedo na manhã do dia anterior: “vida de merda!” Pegou a toalha de rosto e apagou veementemente. Há quanto tempo se sentia assim? Pensou. Há quanto tempo tinha desistido de lutar? Por que se tornara tão apagado? Em que momento atrás sucumbira? Pensou. Não localizou o dia em que perdera a esperança em si mesmo. Olhou-se. Um homem fracassado! Sua expressão era desânimo.
Resolveu fazer a barba. Encheu a mão de espuma e espalhou com força e desespero por todo seu rosto. Lavou energicamente a mão e, mesmo tremendo-a, trocou a lâmina de barbear e levou à costeleta. Fazia a barba como se pudesse tirar suas rugas e vincos marcados pelo sofrimento de ser a maior e, talvez, a única vítima de si mesmo. Como que tomado pelo derradeiro esforço, chegou a pronunciar uma interjeição de auto-estímulo. - Vamos lá, falou para o reflexo que o encarava do outro lado. -Eu consigo! –Vamos lá! Acabou por escanhoar-se cuidadosamente. Abriu o armário atrás do espelho, pegou o tubo de gel e passou prodigamente pelo cabelo. Penteou-se com zelo. Fez as unhas e perfumou-se. Vestiu-se elegantemente, encheu o peito e saiu para o ringue da luta cotidiana, dispondo-se a tentar mais uma vez.
Na casa, todos da família continuavam a dormir. Podia-se entender pelo barulho de louças e panelas, que a empregada já tinha começado a preparar o café da manhã. Desde muito não se tomava mais o desjejum em família. Sua decadência se espalhara e, com ela, também se desequilibraram as relações familiares. Cada um vivia em seu inferno. A empregada não estranhava mais se a mesa posta para 5 pessoas não fosse tocada. Assim como arrumava, desarrumava e guardava. Naquele dia, no entanto, tudo seria diferente, pensou. Mesmo diante da própria incerteza com relação a mais essa tentativa, sentou-se à escrivaninha e preparou um bilhete para sua mulher.
“
Bom dia querida, sei que esses últimos tempos não têm sido fáceis para nós, hoje, no entanto, acordei e percebi o quanto gosto de você e das crianças. Quero muito voltar a ver essa casa feliz. Esta noite, claro, se você não estiver cansada, gostaria de levá-la para jantar fora e depois dançar. Ligue para mim quando estiver disposta... ”
Não, pensou melhor e riscou a última frase e escreveu:
“
Ligo para você mais tarde”.
E subscreveu-se, como fazia nos tempos em que namoravam:
“
Eterno Amor”.
Pegou sua maleta do escritório, foi à copa, deixou o bilhete sobre o prato de sua mulher, tomou um cafezinho em pé, deu bom dia à empregada e saiu. Apertou o botão do elevador. Nos poucos minutos de espera, pegou-se assobiando uma bossa-nova. Sim, tudo iria melhorar. No fim tudo acaba bem, pensou. Se tudo não está bem, é porque o fim ainda não chegou, pensou positivamente!
Abriu a porta do elevador e apertou “SS”. O elevador era velho, mas confortável. As paredes de jacarandá, o painel de botões dourado, o piso acarpetado de bordô, corrimões dourados, teto de metal laqueado, um amplo espelho fumê na parede de trás. A reforma tinha sido impecável. O barulho de cabos e o ranger do carro nos trilhos, no entanto, eram os mesmos de antes. Ouviu um estampido forte. Logo o elevador desequilibrou-se para o lado esquerdo. Outro estampido forte e percebeu, numa fração de segundos que descia descontrolado. Do décimo segundo ao segundo subsolo em cinco segundos .

Quando os bombeiros retiraram seu corpo, ainda se sentia a fragrância da loção importada.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Nós e a caveira

Auto Posto

“Pobre só come carne quando morde a língua”. Eu me lembro desse ditado (bem popular, aliás) escrito no encosto do banco de cimento, do posto Barreirense da Rodovia Washington Luis. As crianças achavam engraçado e chamavam a nossa atenção. Tinham vários iguais: “Sogro rico e porco gordo, só dá dinheiro depois de morto”, (ou será que não era: “porco rico e sogro gordo”?) ““ Deus aperta, mas não enforca”, Pisão de galinha choca não mata o pintinho“, nós dávamos risada, lendo em voz alta para elas, imitando o sotaque caipira. Esses bancos ficam espalhados ao longo do terraço comprido que circunda a lanchonete e o restaurante. Existe até um mini mercado, loja de conveniência segundo a concepção local. O posto fica no município de Cordeirópolis, depois de Limeira e antes de Rio Claro. O dono, então, era um português jovem (será que ainda é o mesmo dono?), muito bem apessoado, simpático e que vinha me cumprimentar, toda vez que me via entrar em seu estabelecimento comercial. Admirava sua mulher, também bonita, sempre bem vestida e simpática. Faziam um bolinho de bacalhau que quase babo ao lembrar (será que ainda fazem?). Eu sempre tomava uma água de coco gelada. Mais uma idéia do português, inédita na época. E ele cobrava três reais cada coco. Em qualquer lugar você podia comprar um coco por, no máximo, dois reais. Mas eu pagava contente. Era uma parada relaxante e, depois de uma semana tumultuada e cheia de trabalho, a porta de entrada para o ambiente tranqüilo e aconchegante do interior de São Paulo. O meu descanso começava, propriamente ali. Sentia o clima e o ritmo alucinante da cidade de São Paulo, ficarem para trás.
A partir dali ia mais devagar. Colocava no toca fita uma música regional, um som de viola e relaxava! A segunda parte da viagem era bem diferente da primeira. Todos dormiam e eu dirigia olhando para o céu. Nas noites estreladas de lua nova ou nos luares iluminados que até sombra as árvores faziam. Estrelas cadentes riscando o pára-brisa. O gado branco no contraste do pasto verde escuro. Os infindáveis canaviais que ardiam com labaredas altíssimas que se viam longe...
No interior ajuste o seu ritmo. Os dias demoram mais a passar. O relógio anda mais devagar. O tempo é outro. E com horizonte, ar puro, silêncio, sol forte do meio dia, sentir uma chuva chegando, vento úmido no rosto, rede na varanda, passarinhos cantando, o farfalhar das copas, cheiro de flor e terra.
Sinto saudades do Auto posto Barreirense e dos fins de semana na fazenda.

sábado, 3 de maio de 2008

Melhor ainda

(Estou pensando em escrever sobre evoluções, o primeiro argumento – inevitavelmente- é sempre uma confissão.)
Basta saber um pouco de história, para se perceber a evolução de nossa espécie! Tudo evolui. Pode-se até evoluir para o caos, mas mesmo pela inércia, evolui-se. Existe o neologismo (desses novos) que resume um pouco o interesse objetivo: evolucionar. Alguns mais radicais até podem achar esse conceito como “de direita”. Mas, ao contrário, evolução incorpora o final de revolução (e é perda de tempo discutir por causa de um “r”). Repare a semelhança com solução. Desde os mais antigos pensadores, até o dito popular urbano: sai da frente que atrás vem gente, o seguir a frente, adquirindo experiência, está bem claro para a raça humana.
Evolução pessoal significa evolução de toda a sociedade. Tudo está entrelaçado!
Pode-se chegar inclusive ao acerto da tese escotista: sempre alerta! Ajudemos as velhinhas a atravessar a rua pela faixa.
Mas o mais fácil é começar por si mesmo. Afinal você está ali mesmo e pronto para ouvir. Uma vez alguém me disse que a única maneira de se chegar bem ao fim é tentar fazer melhor a cada dia. Se você sabe que está fazendo mal e joga para o dia seguinte, você, certamente, não vai chegar bem ao fim. Tente trabalhar os seus sentimentos e faça bem. Visualize o que você quer atingir. Trace uma rota e acredite. Toda a sociedade agradece! Fazendo o bem para você, está fazendo bem para toda comunidade.
É verdade. Eu tento dar a minha cota!
Vai você primeiro!

sexta-feira, 2 de maio de 2008

O Missionário

No fundo todos nós queremos difundir nossa concepção particular dos fatos. Essa difusão significa a transmissão, verbal ou não, do nosso ponto de vista, sobre como enfrentar a vida. O resultado de uma espécie de manual prático individual.
Através dos vários relacionamentos que vamos tendo, pinçamos algumas coisas que aprendemos de uns, aproveitamos grandes lições de outros e assim com as experiências adquiridas nos transformamos e, por conseqüência, aos poucos vamos re-escrevendo o nosso manual.
Ao mesmo tempo e de forma idêntica, interferimos nos manuais dos que nos rodeiam. Entender o outro é a maneira menos traumática de conviver em sociedade.
Os missionários, todavia, não se limitam a expor e também não querem a própria tra
nsformação, almejam somente o convencimento e a mudança de seus interlocutores. Para eles só existe a sua verdade (deles). E, por pensarem conhecê-la, por acreditarem deter o privilégio de acesso ao fato absoluto, sentem-se compelidos a revelar essa descoberta, indistintamente. Sem cerimônia!
Com banners que chamam ao supremo. Com slogans que dizem que o que revelam espelha a verdade, aquilo que ao se saber tudo transforma e renova. Intitulando-se a Salvação! Olham com ar de superioridade para os pagãos. Por isso que se acham no direito de agir sem cerimônia.
É comum nos grandes centros vermos missionários em seu estado mais avançado. Desde a praça central, até nos largos dos monumentos, são muitos os que gritam aos quatro ventos. Gritam, com todos seus pulmões, berram o mais alto que podem seus estribilhos fatais e o caminho do céu. Para quem simplesmente passa e presencia, é muito difícil ter empatia.
Neste caso, é arriscado sentir o que o outro sentiria se você estivesse na pele dele!
Da mesma maneira que não dá para ficar com pena de todo mendicante de farol – sem que com isso se concorde com a injustiça social – não dá para ficar ouvindo todo pregador de esquina. Em nome da sanidade, ninguém merece!
Se existe só uma verdade, é a que diz que os seus próprios donos não evoluem.
São esses os pastores! Só assim é compreensível alguém pensar que pode transmitir a verdade única. Acreditam serem seus donos.
Na realidade o que ocorre não é transmissão. Não se transmite nada, espera-se, simplesmente, que o intranqüilo caia na trama. Afinal, a tranqüilidade e a saúde, são passageiras! Sob a capa da compreensão, da aceitação da vida pregressa, do perdão aos crimes, enfia-se goela abaixo um novo manual de comportamento a ser seguido.
O público alvo, portanto, é a humanidade! E o jogo é de poder!
Só peço a Deus um pouco de lucidez para não cair nessa trama! Não aceito a seita imposta. Estou construindo a minha própria. Na verdade só quero o direito de exercitar meu livre arbítrio.
Olho em volta, vejo em família, no meio de amigos, nos ambientes de trabalho, dentre conhecidos e percebo quantos os missionários. São pessoas próximas, catequistas de suas próprias doutrinações.
Durante o auge do século passado surgiu o manifesto que pregava a paz e o amor, que rompeu com o romance da figura do guerreiro e do caçador, a tourada virou uma violência desnecessária, a guerra foi finalmente vista feia e a matança de inocentes considerada injustificável.
Os conceitos de paz e de amor foram simplesmente repetidos mais uma vez. Foram muitos os personagens que, ironicamente, na mesma medida dos pregadores das praças públicas, repetiram essas revelações, com toda força de seus pulmões, difundindo o princípio do deixar viver, do respeito à individualidade alheia, do direito de ser diferente. Enfim, do livre arbítrio!
Alguns definem o livre arbítrio como a experiência da liberdade.
Não há espaço para missionários na liberdade.